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24/03/2020

Bancos estudam criar linha para folha de pagamento

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Valor Econômico – 24/03/2020

Os bancos privados estudam a possibilidade de abrir linhas para financiar folhas de pagamento de empresas, que devem ver o caixa secar nas próximas semanas com a paralisação das atividades. No entanto, as instituições financeiras defendem que o Tesouro Nacional entre de alguma forma no risco dessas operações, apurou o Valor.

Representantes da equipe econômica têm recebido o diagnóstico dos bancos sobre a crise deflagrada pelo coronavírus, e já ouviram a mensagem de que é preciso dar liquidez, especialmente para pequenas empresas, que serão provavelmente as mais afetadas. O financiamento da folha de pagamentos vem sendo cogitado para assegurar que os salários continuem chegando às contas dos funcionários, evitando assim um agravamento do desemprego.

“Estamos avaliando medidas para ver se ajudam a retardar demissões”, diz um graduado executivo de um grande banco.

Nos últimos anos, as instituições financeiras apostaram fortemente no crédito a pessoas físicas e a pequenas e médias empresas. São justamente os dois segmentos que mais estão na berlinda agora – o primeiro, pelo risco de desemprego, e o segundo, pela falta de caixa para continuar operando.

No domingo, o presidente do conselho de administração da CSN, Benjamin Steinbruch, sugeriu que seja oferecido capital de emergência para pequenas e médias empresas pagarem seus funcionários. A afirmação foi feita numa videoconferência promovida pela XP entre empresários e o presidente da Caixa, Pedro Guimarães. Na ocasião, o fundador da plataforma de investimentos, Guilherme Benchimol, defendeu a criação de um “Plano Marshall” para recuperar a economia e disse que a crise pode levar a 40 milhões de desempregados.

O debate vem num momento em que os bancos começam a temer uma nova crise de crédito, após terem absorvido centenas de bilhões de reais em perdas na esteira da recessão de 2016. Agora, entretanto, há sinais de que a crise será mais abrangente que a última, quando os problemas se concentraram nas grandes empresas.

As medidas adotadas nos últimos dias pelo governo e pelo Banco Central (BC) são consideradas corretas, mas insuficientes. Segundo um executivo de banco, o que se fez até agora ajuda a dar uma “oxigenada” no sistema, mas é preciso que se veja a evolução do quadro nas próximas duas semanas para que possam ser discutidas ações mais estruturais para reerguer a economia.

Desde o início da crise, o BC adotou medidas com impacto estimado pelo próprio regulador em R$ 1,2 trilhão. As ações vão desde medidas para facilitar renegociações de dívidas e liberar capital bancário até uma nova redução nas alíquotas dos compulsórios sobre depósitos a prazo, que baixaram temporariamente de 25% para 17%.

De acordo com fontes próximas aos bancos, a direção está correta, mas ainda é pouco. Executivos ouvidos pelo Valor defendem que os compulsórios sejam zerados para inundar o sistema de liquidez. Só assim haverá um incentivo à oferta de crédito, de acordo com um deles. Outra fonte diz que o BC demorou a agir, mas parece estar mais atento agora.

“É tudo muito módico se comparado ao que está sendo feito nos Estados Unidos e na Europa”, afirma um terceiro interlocutor.

Nesses mercados, os reguladores lançaram planos para a compra em massa de dívida de empresas. No Brasil, uma medida nessa linha está em estudo pela equipe econômica, conforme noticiou o Valor na semana passada, mas nada foi anunciado até agora.

Diante desse cenário, os bancos privados estão mais restritivos no crédito, enquanto os públicos anunciaram ampliação de linhas e suspensões de pagamentos que somam R$ 230 bilhões (somando Caixa, Banco do Brasil e BNDES).

Por enquanto, o governo tem pedido às instituições financeiras um retorno sobre a situação de seus clientes. Há o reconhecimento de que o governo vem fazendo um esforço para anunciar medidas. Entretanto, têm sido recorrentes críticas sobre uma falta de coordenação na condução da crise. “Falta interação de Brasília com as empresas”, diz o presidente de um banco de investimento. “Sem essa coordenação, podem acabar perdendo tempo com medidas que, na prática, terão menor impacto ou que não chegarão a quem mais precisa rapidamente.”

Para a economista Isabela Tavares, da Tendências Consultoria, o choque do coronavírus pode ser pior que o de 2008 para o Brasil, que ainda está se recuperando de uma recessão. “É como se a gente entrasse numa crise sem ter saído completamente de outra”, afirma, acrescentando que as medidas adotadas até aqui aliviam, mas não bastam para conter a queda no consumo, a alta no desemprego e o recuo dos investimentos.

Bruno Lavieri, economista da 4E, afirma que o BC está tentando evitar um empoçamento de liquidez, mas é difícil saber se a estratégia vai funcionar. “Depende em última instância da intenção dos bancos de aceitar ou não a demanda, e a demanda também precisa existir”.